sexta-feira, 23 de maio de 2008

O dia


Manhã:


a cidade


lavada de sol e egoísmo


O vento se dizendo em folhas


Tardinha:


poeira distante,


céu escuro


rezando um ponto final

Pelas ruínas do ouvido e da boca


Meu ouvido,

terra bombardeada pelos ditados

de alguns beatos banguelos,

chefes de impérios de ignorância

e festa abafada.

Meu ouvido,

campo de flagelados,

imensidão alagada por pessoas,

amores,

teorias,

versão atacada por versões.

Meu ouvido,

paraíso dos erros,

abençoado de equívocos.

Minha boca,

ruína de uma usina de idéias,

faísca morta

de uma grande invenção enterrada,

pelo que já sofreu o ouvido.

Minha boca,

à espera...

parindo um tiro,

pairando um retiro,

buscando um abrigo

da constelação de alguns medos,

do perigo da vaidade.

Vai longe e sozinho o pensamento,

a boca chega tarde...

Minha boca,

cozinhando seu crepúsculo,

abrindo portas para um abismo,

se auto-ingerindo.

Minha boca e meu ouvido:

irmãos apartados,

conectados por um umbigo invisível,

perdidos dentro de casa,

esperando o ônibus errado,

tomando banho de rio.

O olhar do cachorro

Sou um caminhão

carregado de sonhos.

Sou um brejo

engolindo chuva

arrotando escuro

e parindo absurdos.

Sou um semáforo que pisca solitário

no meio

da madrugada,

o olhar do cachorro que abana o rabo,

o olhar de brejo

do cachorro

que engolia chuva,

a chuva do brejo

da alma

do cachorro

que embalava meu sonho.

Sou um rascunho de infinito,

parindo chuvas e absurdos,

retumbando almas de cachorros

aqui dentro...

Latido

Um homem morreu no meio do poema,
ruína de si mesmo,
no dia parado do seu corpo
a se esquecer do resto da civilização
da qual, na verdade, nunca fizera parte.

Parte,
parte de mim uma carta sem destinatário,
rasgada no cuspe da intolerância em que sempre se colide,
na curva daquela estória quebrada pela metade.

Mas segue a carta,
parte,
parte da carta encontrada nua
e doente à beira de olhos a não lê-la.

Assim vai,
parte,
partícula sozinha
no vazio da minha cama encharcada de medo.

Mas continuam as palavras
que sobraram no fosso
do que ainda insiste em morar
no deserto da cabeça.

Continua...
Meio carta,
meio uivo noturno,
meio homem,
meio bicho.

E a carta?
Ah! Essa já foi pro lixo.
Nem foi nem ter ido,
agora é só um latido.

Esse latido,
porém,
prossegue viagem adentro pelos ouvidos insones
da madrugada perdida nos meandros daquele medo.
Brotam personagens na TV apagada
que trago trancada no peito.

O latido
 vara a paciência
da multidão
alheia
do sarcófago que se constrói
no povo faminto
de meu rosto.

E vai,
pega a trilha do escuro:
vasto o campo de batalha,
vasta a miragem inalcançável do colo distante da palavra amor.
Isso tudo tão simples quanto os pássaros,
cantando pela manhã
do peito quase espedaçado
do palhaço
que latia pelas enxurradas
que devastavam a noite anterior.


E o latido, para onde foi?
O latido, meu caro, morreu ao primeiro raio de sol.
São os olhos inchados,
cheios de café.
Um ônibus acordando devagarinho,
os primeiros passos na rua,
crianças amontoadas no chão da praça.

Não existe mais o latido
e sim pessoas perdendo a hora,
resmungando o tempo,
ruminando imagens e rostos vagos,
escondendo-se
no dia seguinte.


O dia da morte no olho

A morte veio e sentou-se na sala.

Corri para me proteger num colo

ou numa risada.

A morte veio disfarçada.

Falei com ela,

pedi para que me deixasse

ainda sentir o beijo do vento no rosto.

Para a morte estendi um tapete vermelho,

às vezes é só um aviso.

E os homens transformaram-se todos em crianças,

era o dia da morte

no meu olho,

um dia eterno...

Contei de trás pra frente,

cuspi no relógio

e corri até o final do mundo.

A morte me acenava de longe,

não era a minha hora.

Sinfonia do fim do sol

A vista de um corpo de sede.

Vertebra que parte,

no corpo que fala

do que pouco que preste.

Preto,

sugado sorriso

de silhueta esquálida.

Certidão de dor,

multidão de choro inválida.

Palavra afogada nos olhos,

a lágrima.

Discurso triste do sol,

a hora de se por.

Bailar com Zeus

Vieram me pedir pra falar com Deus,

infinito de um livro que chora toda a tempestade

a lavar os homens tão formigas

que eram na saudade da Terra já morta.

É,

o planeta era azul,

meu mundo fazia arco-íris a cada sorriso

com que presenteava a vida.

Veio também a música,

raiando no corpo.

Posso saber o gosto gozo sabor

que se curte de molho.

Vago pela noite da esquina última,

volto ao mar do papel,

alma do rascuhno torto.

Solto o mar da cabeça em vulcão,

lágrima fazendo esquecida, sem porto.

Idéias e amores no giz do chão.

Choro também o tempo tapado de sol-i-dão

tão...

tão sem...

tão não...

tão cão.

Pediram para falar com Deus

o mundo vazando tristeza no chão,

vida vivendo de a-deus,

nasce e morre na miséria de um pão.

Na esquina do seu desejo

Aventuras abertas

na ferida do dia,

o sol grita o seu nome.

Oceanos de palavras desaguam da boca,

seu rosto,

tormenta do sono.

Na esquina do seu desejo

comprei um caminhão de músicas

falido.

Você apareceu

no

meio

do terremoto

em que se perdia

o meu

corpo.

Você veio


como quem não vinha,


no olho da manhã,


que me sorria.

Na nuvem da noite

de seu olhar de vaga-lume

À beira de nosso fogo

e além do cume

sou uma legião de terremotos

Minha cabeça

à deriva

dias e noites

na aurora do seu sorriso

Venho incendiar

a multidão enlouquecida

de seu desejo

Cumpri o prazo dos céus

e agora tenho sua luz em minha cabeça

e seu oceano dentro do meu peito

Seu cheiro conquistou meu desejo

e confiscou minha sensatez

para que eu morresse em seu colo

mais uma vez

Tenho a boca florida de versos

para povoar a multidão secreta de seu prazer

Sou um livro aberto que mora em você

Leio você lendo meu rosto

Habito seus becos

seu sorriso é meu porto

Guardo a voz de seu segredo

e o cheiro da sua pele

no coração do sonho

no dilúvio do nosso encontro

Deixei minha alma perder-se

na correnteza de sua ternura

Agora sou um povoado de festas

O Deus de um olho sorrindo


Música

a minar o pensamento de pedra.

Atmosfera casando olhares,

gozos cantando em queda.

O corpo sorri carinhos na alma,

muito mar na cabeça secreta.

A alegria de um deus que brinca e salta.

Na manhã de Titã,

faço abismo de seu olho,

invento o fogo de nós dois,

viajo caminhos de flor

pra morrer em seus braços.

Miragem de paz

Aurora,

os pássaros brincam na nuvem do sonho

multidão de música.

Corro para respirar o sol

abro uma estrada de fé

no centro do desespero

dos pensamentos empoeirados

dos passados rancores

dos filhos perdidos

Rumino miragens

do amor

do dia

sem credo

sem dor

Nos sete ventos do sorriso

trouxe do infinito uma flor

Venho navegar o olhar da Terra

coberta de paz.

Sol do corpo

Ajuntaria os pedaços de um tempo

no mundo compacto

do meu próprio resumo,

enquanto um homem que morre

no interior de cada livro,

a se reinventar no delírio de uma linha

que não visse freio

no deslize da tinta

por sobre o pensamento

que mapeia o trabalho dos olhos.

Veria mais uma página

no sol que faz o corpo

quando exposto a palavras,

borbulhando ao redor

de pensamentos noturnos,

a brincar na vizinhança de nossos limites.

Ensaios da cabeça ruminante

Cabeça ruminante,

filha do sol,

afogada de chuva.

Caio no meio do tempo em que está

perdido

o meu juízo das coisas.

Praguejo pelas inquietudes

do pensamento ambulante.

Falo de um mundo que nos açoita

em nuvens e caminhões de idéias,

na hora em que,

às vezes,

só queremos gozar de uma sobrevivência tranquila.

Parto do mundo,

parto de seres

que me falam aos surdos de costas.

Parto:

metade morre, metade vive

metade mora, metade esmola

metade mente, metade sente.

Um deus rasgado de miséria e verso chorando.

Vem ele falar ao meu ouvido

esbaldado num surto de equívocos.

Garimpo

O pensamento corre na lama

do ponto de alguma ventania

de palavras a se conquistar no instante

de momentos secos de...

poesia,

e s p a l h a d o s pelos arredores da morta rotina

a tragar toda a flor

que me brotava

no longe

do quando

tinha a lembrança de nossa existência medíocre,

perdida no todo dia pago,

na eterna parcela de um carnê

a nos prometer alguma visão de felicidade,

trancada

no possível de somente aquela minoria,

sempre a mesma da história,

abandonada na esquina de nossos deveres

esperando ser cumpridos.

Atropela-se o tempo de vadiagens

que nos erram

na perfeição do cenário construído

para abrigar nossa condição miserável de consciência.

Escrevo a curva que o corpo executa

na busca do garimpo

mais fundo de nós mesmos,

no tanto de tentar esconder o poço escuro em nossa sombra,

a nos pedir o erro e o absurdo.

Falo,

e a cada palavra

também engano o martelo

que tenho no peito,

a me dizer todo dia de um mesmo sol

que nasce em cada pensamento

já estéril,

rumando na direção do que aplaudimos

enquanto inquestionável.

Grosseira a alegria de um livro

escrito por sobre toda a sorte de saberes alheios,

a atropelar o mais calado sujeito

que tem como vício o simples ato de obedecer.

Venho,

finjo-me o dicionário do meu ócio,

enterro o que não me justifica,

puxando quem lê

para o horizonte descampado da minha loucura,

a embelezar o mapa já velho das minhas verdades.

No raiar das cabeças em chamas


Meu mundo,
o pretérito imperfeito
do que não morria no tempo lá trás.
Queria cristalizar
no agora das histórias,
em se criar no espaço de dentro,
no cada um de nós,
afirmando-se todo um povo de passado
a contar o que somos.

No raiar de nossas cabeças em chamas,
veio o nascimento mais belo que fizemos de nós mesmos.
Subi no alto da minha paixão confusa,
encontrei seus olhos dizendo uma vez mais
aquele trecho vasto de música
na boca de nossas incertezas.
Não são harpas
pedindo a sombra indefinida
em palavras de mais tarde.
Mas a canção do que tínhamos carregado
em cada aposento de nossa alegria.
Sem limites o feixe do qual brotamos enquanto magia.
Viemos então à luz,
parindo abismos de amar
e chegar perto da criança
escondida no porão do palco
em que habitamos
todos os nossos inocentes seres,
sem o propósito planejado da existência.

Não é na distância da noite,
onde perambulo as maiores descobertas,
que ficarei morto,
assistindo ao branco das vidas a esperar por minha caneta.
Já não venho com as lágrimas
que me procuravam
num dia nublado,
de tristeza trovoada,
no povoado cercado de minhas utopias mal nutridas,
encarceradas no escuro de minha lucidez.
Presto contas de um tempo rodado
na catraca solitária que movimenta meu sangue.
Não vejo o lado outro,
da vinda de homens,
a trazer a paz
para a perifeira do que somos,
pedindo perdão ao mais revoltado cidadão de nossa angústia.
Escrevo,
de dentro do olho da minha explosão,
o que jaz na ilusão
dos que fugiam do escuro,
não percebendo o mergulho da ignorância
a plantar-se
em gritos
na miséria instituída.
Não cobro a suposição do mal-entendido
entre as línguas
exiladas do encontro
que seria a abertura
de mais realidades
ao fantástico de nós mesmos.
Cerco a poesia
na vista cansada
de
tanto
esperar,
não se sabe o quê,
nem quando
chegar
a vez.